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COINCIDENCIA Turnê / Exibição

De navios e utopias

«Hotel der Immigranten» by CapriConnection ©Nelly Rodriguez

 «Hotel der Immigranten» [Hotel dos Imigrantes] é o título do novo projeto da CapriConnection e da autora Anne Jelena Schulte, que mistura música e teatro, criado a partir de uma viagem de pesquisas à Argentina.  O tema é a imigração europeia e uma utopia do coletivo argentino Estrella del Oriente.

Escrito por Katja Zellweger

«Lejos, lejos» era a resposta da mãe para tudo, era o que ela conseguia expressar debaixo de lágrimas, na travessia do Atlântico, naquele novo e estranho espanhol. Me pergunto se com «longe, longe» se referia à distância até o lar europeu ou até a terra firme desconhecida? Ou talvez à distância da vida precedente, como esposa de um contador e mãe de cinco crianças, que, de repente e sem qualquer preparo, tinham a tarefa de tornar fértil uma terra no norte subtropical da Argentina? Na verdade, porém, isso não tem importância. É o que achamos nós, europeus, nós que permanecemos em casa. Mas, para aqueles que tiveram a coragem de cruzar o oceano de navio rumo a um futuro desconhecido, a distância, a distância a separar da Europa tinha grande importância. Saudade aguda e identificação pela metade com ambos os lugares foram a consequência.

Muitos se sentiam absolutamente afastados da Europa na Argentina, varridos da memória da Europa e do resto do mundo. Afirmações do tipo «às vezes eu penso mesmo que aqui é o fim do mundo» tornam palpável esse sentimento de «lejos» no projeto cênico-musical «Hotel der Immigranten» [Hotel dos Imigrantes]. A autora alemã Anne Jelena Schulte transformou essas falas, extraídas de entrevistas com emigrantes europeus da primeira geração, num texto poético, que constitui a base da peça. Sobre esse material escrito, debruçaram-se o grupo suíço CapriConnection e Pedro Roth, do coletivo argentino Estrella del Oriente. Graças ao apoio do programa Coincidência, da Pro Helvetia, o CapriConnection acompanhou Anne Schulte na viagem de pesquisas na Argentina. Ela os levou ao Hotel dos Imigrantes, na província de Misiones, no nordeste da Argentina, a emigrantes suíços e, finalmente, ao projeto de utopia do coletivo Estrella del Oriente, em Buenos Aires.

No Museu dos arquivos da Migração

O Hotel dos Imigrantes, no porto de Buenos Aires, era o local de chegada para os estrangeiros, que ali ficavam alojados até receberem permissão de entrada. A construção oferece vista desimpedida para o Río del Plata, sempre tingido de marrom pelo lodo, a separar os migrantes da Europa. Embora mais de cinco milhões de italianos e espanhóis constituam a grande maioria dos recém-chegados na Argentina, ainda assim, proporcionalmente, emigraram suíços em grande número. Entre 1857 e 1940, foi registrada a chegada de 50.000 suíços, dentre eles a poeta Alfonsina Storni, de Tessin, cuja imagem se encontra reproduzida num selo postal argentino, e Johan Alemann, proveniente de Bern, que fundou o «Argentinisches Tageblatt», editado até hoje em alemão.

Atualmente, o Hotel dos Imigrantes é um museu e arquivo. Dali provêm os inúmeros arquivos de imigrantes que podem ser vistos na peça. Eles são projetados em telas brancas, penduradas em barreiras gradeadas. O público fica amontoado no meio deste museu frio e estéril que guarda os arquivos da migração. Mesmo que os documentos contenham pouca informação, o ruído dos projetores de slides (imagens: Tebbe Schöningh) cria um solo fértil muito instigante para se imaginar as histórias de migração de cada imagem.

Visitando os Tischhäuser e os Senn em Misiones

No começo da peça, Anne Schulte e Pedro Roth, do Estrella del Oriente, definem migração como «destinos humanos» coletivos, diferentemente de destinos individuais. Por esse motivo, a atriz Susanne Abelein, do CapriConnection, atua como um suporte, transmitindo as histórias de migração pesquisadas na Argentina de modo a representar todas elas. Ela é acompanhada do inequívoco som do acordeón argentino (Jonas Kocher), electronics e voz (Christof Kurzmann) e dos ruídos do trompete (Leonel Kaplan), que transitam resolutamente do plástico ao melancólico. As histórias sobrepõem-se, assemelhando-se em seu tom de memórias da infância, mas diferindo nos detalhes. «A gente achava que estava fazendo uma viagem», soa infantilmente inocente. Ao mesmo tempo, fica claro que se trata de pessoas octogenárias revolvendo suas memórias. A autora Anne Schulte restringiu-se propositalmente à primeira geração de emigrantes. Nesse caso, a saudade, a referência à vida anterior é mais imediata – até o fim da vida.

A pesquisa levou o CapriConnection e Anne Schulte a Misiones, província subtropical próxima da fronteira com o Paraguai e o Brasil, onde eles conversaram com suíços chamados Hansruedi, Erwin ou Zimmermann, Tischhäuser e Senn. Esses emigraram quando crianças, nos anos 30, com seus pais. Na região, vivem ainda hoje em dia aproximadamente 2.500 argentinos com passaporte suíço. Os suíços por lá eram considerados, inclusive, importantes plantadores de erva-mate, a bebida nacional da Argentina e do Uruguai, sorvida quente e de efeito estimulante. Schulte e Anna-Sophie Mahler, integrante do CapriConnection e diretora cênica da peça, contam sobre entrevistas recheadas de vocábulos suíços e de uma imensa gratidão dessas pessoas por, enfim, serem escutadas e reconhecidas como parte da história europeia. Sobre uma história completamente abafada sob o barulho atual em torno das migrações. Embora a emigração da Europa de 1850 até depois da Segunda Guerra Mundial tenha sido um fenômeno de grandes proporções. Primeiro, as pessoas abandonavam sua terra por pura necessidade material. Anúncios na imprensa e auxílio para a imigração funcionavam como incentivo. Em uma segunda fase, sobretudo no século XX, pessoas de regiões urbanas, em particular, aproveitaram a chance de encontrar sucesso material no exterior. Hoje, elas seriam pejorativamente denominadas «refugiados econômicos». Da mesma forma, durante a Segunda Guerra, muitos judeus fugiram do nacional-socialismo.

«Propor ao invés de opor»

Pedro Roth, que desde o início da peça está sentado à mesa, pintando, representa este último grupo. Sua própria história de migração e como essa se manifesta nos projetos do coletivo Estrella del Oriente é o tema da segunda parte da noite. Quando jovem, Roth salvou-se com sua mãe, saindo da Hungria, passando pela Romênia e por Israel até chegar à Argentina. Seu pai foi morto em Auschwitz. Desde que viajou à Suíça para o projeto, Roth reconheceu seu passaporte suíço. Para a fuga havia sido emitido um – falsificado – para ele e sua mãe. Mas ele nunca teve utilidade.

Pedro Roth during «Hotel der Immigranten» ©Nelly Rodriguez

O tema migração também é onipresente em sua arte, seu pensamento e em seu agir: Roth, que já passou dos 80 anos e fala com a agradável melodia dos argentinos, é, ao mesmo tempo, dinâmico como um homem de 30 anos e tem o pensamento artístico de um filósofo europeu, tendo-se aprofundado na questão da capacidade humana para a utopia. Da mesma forma «compulsiva» como desenha, segundo ele mesmo conta, Roth também cria utopias, sonhos e visões. Hoje, observa como muitas pessoas apenas vão acumulando raiva, sem transformar essa raiva em algo criativo. Seu credo, entretanto, é «proponer en vez de oponer» – «propor ao invés de opor».

Por isso, como parte do coletivo Estrella del Oriente, criou um navio em forma de baleia. Sua função é pegar pessoas que querem imigrar e transportá-las de navio para museus do «primeiro mundo». No navio, a pessoa se transformaria, ao transpor a «ponte de Duchamp», numa obra de arte. Como obra de arte, ela tem livre trânsito nos portos (de arte) deste mundo, que não querem abrir-se para ela como refugiada. O projeto de 300 milhões descrito por Roth é uma maratona kafkaesca em busca de financiamento e de credibilidade. Não há como saber se, neste caso, um grupinho de velhos com aspirações artísticas pensou um pouco grande demais ou se as alas jovens desaprenderam como converter sua raiva em criatividade. Um Roth maroto fica devendo uma resposta clara – a consequência é a identificação das próprias utopias.