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COINCIDENCIA

«Pensar/ Transferir/ Agir» – Entrevista com Young Boy Dancing Group

YBDG performing in Chile @Nave during «Anxiety Tour» ©Ramon Sauma

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Young Boy Dancing Group
Carolina Martinez

Data
Julho de 2020

Por Carolina Martinez

Nos últimos meses, o mundo inteiro contou uma história coletiva sem ter combinado nada antes. Geralmente, as diversas histórias e acontecimentos que ocorrem em lugares diferentes são reunidos sob uma narrativa comum que é interpretada como a realidade de um momento, espaço e tempo.  

O programa «COINCIDÊNCIA», quer, neste momento, possibilitar o encontro de ideias, anseios, medos, críticas e diversas formas de expressão humana e artística para, em conjunto, discutir que novas formas, modelos e linguagens podemos projetar para um mundo pós-coronavírus. 

Young Boy Dancing Group, W Imma Asher, Sophia Park, Gabriella Alexis, Maria Metsalu, Nicolas Roses, Manuel Scheiwiller, Boffo, Pines, Fireisland, NY, 2019
Young Boy Dancing Group, Fire Island, NY, 2019

CAROLINA MARTINEZ: Estamos em um período de adaptação coletiva, uma situação e momento em torno dos quais têm se refletido bastante sobre o impacto individual e global, onde estamos conseguindo ver uma mutação e, com ela, o perigo da mudança. Podemos reconhecer essa potência perigosa? Onde e de que maneira essa latência se manifesta? 

YOUNG BOY DANCING GROUP: Acho que nós, como artistas, estamos acostumados a lidar com a vida com um terço do salário mínimo. E, assim, ter que se virar. O perigo, neste sentido, é onipresente. E agora mais ainda. Mas ter isso como uma condição básica levou o YBDG desde o início a focar e a ter como objetivo diversificar nosso público e renda, a não depender apenas de uma fonte de renda.  

 

CM: A abertura daquilo que acontece nos campos da arte e da ciência, e do conhecimento em geral, é possível graças à comunicação e, sobretudo, à transmissão, que é ao que o «COINCIDÊNCIA» se propôs desde o começo do programa. Nesse sentido, a troca de diálogos se manifestou através de viagens, residências, exposições e outros projetos: instâncias que hoje têm que buscar uma reconfiguração. Diante desse novo cenário, como você acredita que poderíamos, hoje e no futuro, conseguir essa troca? Que novas experiências podem ter impacto nesta transferência? 

YBDG: Onde quer que um projeto seja realizado, as pessoas da localidade devem ser integradas e precisam ser bem remuneradas financeiramente. Acumulamos a experiência de que artistas e profissionais europeus que viajam para a América Latina apenas para seu próprio benefício não são bem-vindos. Se você trouxer trabalho ou um orçamento, sua presença é muito bem-vinda. Obviamente, isso vem da história europeia/americana. Portanto, em nossa opinião, quanto mais promissora for uma proposta de projeto em termos sociais e quanto mais integrada localmente, melhor.  

YBDG performing in Argentina during «Anxiety Tour» ©YBDG
YBDG performing in Argentina during «Anxiety Tour» ©YBDG

 

CM: A instabilidade que o mundo e cada um de nós está sentindo nos torna conscientes de nossa fragilidade, em que o futuro vai ganhando um novo significado. Paramos juntos, e estamos vivendo um tempo que poderíamos denominar «de espera». Como você manifestou em seu trabalho esse presente que, de alguma forma, por enquanto só tem a si próprio? É possível pensar no futuro e, assim, imaginar novos contornos possíveis para os seus projetos? 

YBDG: O Covid19 e o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) nos ensinam que a solidariedade e a luta pela mudança são mais importantes do que ser produtivo em seu próprio trabalho.  

Pessoalmente, eu diria que nosso trabalho é 20% de performance e 80% de burocracia. Para nós, é bom usar esse tempo e nos profissionalizamos quanto a nossa eficiência burocrática. 

Além disso, voltamos ao ponto onde começamos: gravando filmes, pois eles são menos afetados pelas medidas de proteção do que as performances. Como novo formato, adotamos a prática coletiva de desenho, que será desenvolvida ainda mais neste verão.  

Além disso, esse tempo nos ensina a prosseguir com a construção da comunidade e a colaborar o máximo possível, compartilhando ganhos financeiros. Apoiar as pessoas ao seu redor é mais importante do que seu próprio enriquecimento. 

 

CM: Antes das medidas de proteção contra a atual pandemia, as formas de comunicação e interação entre as pessoas haviam adquirido um nível de virtualidade e interação on-line muito alto. E agora que essas maneiras amorteceram e auxiliaram as novas formas de comunicação necessárias, a sociedade parece sentir falta do contato real e mais humano. Como vocês veem o que está acontecendo? Depois que isso passar, voltaremos a esse estado pré-Internet ou esse regime virtual e comportamental se tornará ainda mais intensificado? 

YBDG: Para nós, online e offline são o mesmo. Encontramos mais pessoas com a mesma opinião online do que offline. Acho que não podemos fazer previsões, pois cada cena tem seu próprio modo de funcionar. 

Para nós, a Internet é uma parte importante do nosso trabalho. É onde começou e onde certamente continuará. Nesse caso, podemos dizer que a virtualidade é mais real e humana do que nunca. Certamente atravessamos a fronteira em que a virtualidade não é uma opção, mas uma condição humana. Dessa forma, é também uma ferramenta de expressão e um instrumento para explorar a si mesmo e a liberdade. A virtualidade nos separa fisicamente, mas nos une também de

YBDG performing in Argentina during «Anxiety Tour» ©YBDG
YBDG performing in Argentina during «Anxiety Tour» ©YBDG

CM: Um grupo como o seu é capaz de gerar uma simbiose que leva a uma linguagem e comunicação específicas que podem gerar algo como um «ecossistema». Essa linguagem foi transformada como grupo? De que maneiras? Como essa nova linguagem em potencial pode mudar o espírito e a prática artística do YBDG? Que oportunidades e crises vocês enfrentaram como grupo humano e como estão conduzindo seus projetos? E a partir daí, como muda a relação com o outro, com o espectador e como seria possível uma troca entre eles/elas e vocês nessas condições? 

YBDG: Desde sempre, e agora mais do que nunca, sentimos um desejo de abrir estúdios de dança em diferentes países onde as pessoas que trabalham com dança possam dar aulas, ensaiar seu trabalho, se reunir e usar o espaço para assuntos ainda não definidos. Em essência, comprar imóveis que serão consertados, permitindo que a propriedade privada se torne pública. Precisamos de mais espaços públicos onde possamos formar comunidades, a arte é apenas uma expressão das comunidades. Em um mundo que privatiza até a água potável, os espaços públicos não são nada menos que um assunto radical.  

 

YBDG performing in Chile @Nave during «Anxiety Tour» ©Ramon Sauma
YBDG performing in Chile @Nave during «Anxiety Tour» ©Ramon Sauma